Archive for julho, 2011

Maria Zeldis

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Fernando Pessoa

Na Floresta do Alheiamento

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de  eu viver, diz-me que é muito cedo ainda. . . Sinto-me febril de longe.  Peso-me não sei por quê. ..

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre um sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar.

Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente  a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-me, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.

Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro, e incerta, altera-me como a brisa aos perfis das copas.

Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é  apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta. . . Para que há de um dia raiar?. . . Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.

Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é esse. ..

Surge mas não apaga esta, esta alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.

Que nítida de outra e de ela essa trêmula paisagem transparente! . . .

E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar? . . . Eu nem sei querê-lo saber. . .

A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem. . . e essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos  de conhecer aquelas árvores, e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar, que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver. . .

De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto, um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou atual destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de noturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só-ela a paisagem daquele outro mundo.

..

Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma, no horizonte d’essa terra diversa… E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível…

Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher. . . Um grande cansaço é um fogo negro que me consome. . . Uma grande ânsia passiva é a vida que me estreita. . .

Ó felicidade baça… O eterno estar no bifurcar dos caminhos! . . . Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. . . E talvez eu não seja senão um sonho desse  Alguém que não existe. . .

Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta  tão aqui ante outros olhos meus! E eu, que longe desta paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades d’ela. E é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro. ..

As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!. . .

Passeávamos às vezes, de braço dado, sob os cedros e  as olaias, nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte.

Dávamo-nos as mãos e os nossos olhos perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor. ..

No nosso jardim havia flores de todas as belezas. . . rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoulas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume. . . E, pasmados  por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.

Nós roçávamos a alma toda vista pelo frescor visível  dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição  esguia de outras terras. . . E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes o éramos. . .

Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes. . . Plátanos  estacavam…

E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio  das latadas os cachos negrejantes de uvas.

. .

O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção  entregue do outro braço que o sentia.

A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo- nos. Como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos. . .

Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara- se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma cousa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às cousas que existem?. . .

Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais. . . Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena. . .

O movimento parado das árvores; o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinido do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro e dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo  à alma do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada — tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.

Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade no espaço. . . Que horas, ó companheira inútil  do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram ali. . . Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa. . . E nós não nos perguntávamos  para que era aquilo que não era para nada.

Nós sabíamos ali. Por uma intuição que por certo  não tínhamos.

Que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha externa onde as montanhas são hábitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la era estranho como um perfil de cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal.

Orlas de marés desconhecidas tocavam, no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida  singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis  e comandados da Terra.

Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós de que a consciência de o ouvirmos.

E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais. . .

Ali vivemos horas cheias de um outro sentirmo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão  diagonais à certeza retângula da vida. . . Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de outro mundo mais cheio de orgulho de ter mais desmanteladas angústias . . .

E doía-nos gozar aquilo, doía-nos. . . Porque apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era úmida de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto.. .

Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz.

Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao  outro a não quererem ter vida.

O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro.

A nossa atenção sonolente ao mistério de tudo isto é  mole como uma cauda de vestido arrastada num cerimonial no crepúsculo.

Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção  é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.

Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa idéia do  nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vemos de muito longe, como a nossa idéia de haver a nossa vida. . .

Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo, riríamos sem dúvida de nos imaginarmos vivos. O frescor aquecido dos lenços acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro nus.

Desengunemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós. . . Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento. . .

E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós, outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa idéia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que esta floresta misteriosa esquadra. . .

As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia.

Não nelas mas na melodia de seus nomes.. . Flores cujos nomes eram repetidos em seqüência, orquestras de perfumes sonoros.

Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas. . . Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa. . . Sombras que eram relíquias de outroras felizes. . . Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se boceja em próxima. . . ó horas multicolores!. . . Instantes-flores, minutos-árvores, ó  tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!. . .

Loucura de sonho naquele silêncio alheio!…

A nossa vida era toda a vida… O nosso amor era o perfume do amor. . . Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós. . . E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade. . .

Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer. . . Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria. . .

E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão— assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós  sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vivera.

. .

Quando emergimos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo- nos a querer soluçar. . . Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados cheios de tédio inúmero  de ser. . . Cheios, sim, do tédio de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua  voz na mudez e no exílio dos lagos… E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto. . .

E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos. . . Porque nós  não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma.. . Não tínhamos vida que a morte precisasse para matar. Éramos tão tênues  e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo de uma palmeira.

Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade  das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência.

Imobilizar-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos. . .

E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparamos que éramos um só,  que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si,  o mero eco do seu próprio ser. . .

Zumbe uma mosca, incerta e mínima. . .

Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e  dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto…

Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei.

Tudo se funde e só fica, fingindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza soçobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece. . .

A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora.

. . Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos.. .

Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta, e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.

Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia  que é.

Não choremos, não odiemos, não desejemos. . .

Cubramos, ó silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto da nossa imperfeição. . .

 

Fernando Pessoa

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