Archive for outubro, 2006

Mário Quintana

O Anjo da Escada
Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando clamando…
Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
Com os meus caminhos…
Com as minhas nuvens…
Mário Quintana
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Octávio Paz

Transblanco
Quando sobre o papel a pena escreve,
A qualquer hora solitária,
Quem a guia?
A quem escreve o que escreve por mim,
Margem feita de lábios e de sonho,
Colina quieta, golfo,
Ombro para esquecer o mundo para sempre?
Alguém escreve em mim, move-me a mão,
Escolhe uma palavra, se detém,
Pende entre mar azul e monte verde.
Com um ardor gelado
Contemplo isto que escrevo.
A tudo queima, fogo justiceiro
Mas o juiz também é justiçado
E ao condenar-me, se condena:
Não escreve a ninguém, a ninguém chama,
Escreve-se a si mesmo, em si se esquece,
E se resgata, e volta a ser eu mesmo.
Octávio Paz

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